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Crónica

Queremos mesmo vestuário de qualidade?

A juntar a todas estas prioridades há o aumento da reciclagem têxtil. Como a maior parte da roupa tem tão pouca qualidade, usamo-la por um curto período de tempo e deitamo-la para o lixo. A cada segundo, um camião de têxtil é depositado em aterro ou incinerado

Texto de Ana Marreiros • 16/04/2018 - 14:28

Ana Marreiros
Ana Marreiros vive em Lisboa e trabalha em comunicação. É atenta ao que se passa à sua volta

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Não vestirás roupa sintética! Não lavarás a tua roupa quando te apetecer! Não descartarás a tua roupa até que esteja rota ou cheia de borbotos! Não comprarás por impulso a roupa de que não necessitas! Estes são alguns dos conselhos divertidos que ouvimos a propósito da celeuma dos microplásticos que estão na roupa que vestimos e que são libertados para os oceanos sempre que lavamos roupa na máquina.

 

Como é bonito dizer: o problema é multidisciplinar e tem de ser atacado em várias frentes. Concordo. Porém, será sensato colocarem a “culpa” no consumidor que não tem assim tantas opções de compra de vestuário sem microplásticos?

 

Entendamos primeiro o que são microplásticos têxteis. Chamam-se microfibras, medem menos de cinco milímetros e estão nos têxteis produzidos à base de plástico: sintéticos como o poliéster, acrílico, nylon ou licra. Difíceis de ver a olho nu, usamo-los todos os dias na roupa que vestimos para trabalhar, praticar desporto, passear, em lazer ou para estar em casa. As razões pelas quais a nossa roupa incorpora sintéticos são várias: repelem a água, filtram o suor, aquecem-nos e conferem elasticidade sempre que precisamos dela. Em todo o mundo, 60% do vestuário é produzido com poliéster.

 

As mesmas microfibras que nos satisfazem e confortam são cada vez mais reconhecidas como poluentes ambientais. Estão a contaminar os rios, os oceanos e os peixes que comemos. Começam as crenças de que este tipo de contaminação pode estar ligado a questões de saúde pública como o cancro, diabetes ou perturbações no sistema imunológico.

 

Tudo porque lavamos a roupa. O poliéster é o tecido que mais liberta microplásticos na lavagem na máquina — uma única peça pode libertar perto de duas mil microfibras. Em média, um programa de lavagem normal de cinco quilos de tecidos de poliéster liberta mais de seis milhões de microplásticos. Uma lavagem de seis quilos de roupa de acrílico pode libertar mais de 700 mil microfibras.

 

Depois de saírem das nossas máquinas de lavar roupa, as microfibras vão para as estações de tratamentos de águas residuais e até 40% escapam para os rios e oceanos. Anualmente entra nos oceanos meio milhão de toneladas de microfibras, 16 vezes mais do que os micro-grânulos dos produtos de higiene pessoal e cosméticos. Estudos sugerem que 20 a 35% dos microplásticos dos oceanos são fibras de vestuário sintético.

 

Capturar as microfibras tem sido o foco da discussão, mas felizmente há quem olhe para o futuro procurando resolver o problema a montante. O relatório The New Plastics Economy: Rethinking the future of plastics lançado pelo World Economic Forum e pela Ellen MacArthur Foundation sugere duas acções para reduzir a libertação de microfibras: desenvolver novos materiais e processos de produção que reduzam ou eliminem a libertação de microfibras e aumentar o desempenho e a eficácia das tecnologias de captura das microfibras inevitavelmente libertadas.

 

Enquanto aguardamos por estes desenvolvimentos, há tanto a fazer. De forma multidisciplinar e em várias frentes, como é bonito dizer. As infraestruturas de tratamentos de águas residuais das fábricas têxteis e municipais podem ser reformuladas com filtros de tecido que retêm as microfibras. A investigação e desenvolvimento pode apostar em substituir as fibras sintéticas por naturais, como é o caso do bambu que desempenha muitos dos atributos do poliéster.

 

Estilistas e designers podem desenhar roupas de forma diferente, criando novos materiais ou adaptando os que existem. A comunicação e o marketing podem sensibilizar os consumidores para as desvantagens humanas e ambientais resultantes do uso do vestuário sintético e explicar que medidas estão a ser tomadas para combater esta contaminação mundial. Arrisco-me a perguntar: porque não voltar ao vestuário de qualidade e durabilidade, adicionando um novo atributo, “amigo do ser humano”?

 

A juntar a todas estas prioridades há o aumento da reciclagem têxtil. Como a maior parte da roupa tem tão pouca qualidade, usamo-la por um curto período de tempo e deitamo-la para o lixo. A cada segundo, um camião de têxtil é depositado em aterro ou incinerado. Anualmente, perdemos mais de 500 mil milhões de dólares devido à falta de reciclagem e à subutilização de vestuário.

 

Tanto por fazer. E tão pouco nas mãos dos cidadãos. Resta-nos acreditar que a indústria têxtil, retalhistas, marcas de roupa, indústria da reciclagem, academia, centros tecnológicos, governos, câmaras municipais e ONG não vão desistir de encontrar formas de minimizar os impactos das microfibras. Não vão desistir até que o vestuário seja “amigo do ser humano”. Os consumidores cá estarão, ávidos de novidades. Disponíveis para ouvir, para orientar soluções e para dar empurrões sempre que as soluções sejam sistémicas.

 

Vestiremos roupa “amiga do ser humano”. Lavaremos roupa sempre que nos apetecer. Não teremos necessidade de descartar roupa porque será de boa qualidade. Continuaremos a dar azo aos nossos impulsos de compra. Por consumidores e têxteis saudáveis.

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