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Crónica

Vamos trazer os telemóveis para a sala de aula

Proibir os telemóveis? Assim que os nossos alunos puderem ter mão neles, hão-de fazer tudo quanto lhes der na real gana. E nessa altura não terão ninguém, nenhum professor, nenhum pai ou mãe ao pé para os ajudar, para os educar

Texto de João André Costa • 11/06/2018 - 11:06

João André Costa
João André criou o blogue Dar aulas em Inglaterra

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As crianças, os jovens e os professores franceses vão ser obrigados a ficar sem telemóvel nas escolas e universidades e nada, mas mesmo nada, poderia ser mais contraproducente, como se os telemóveis não fizessem parte do dia-a-dia de milhares de milhões de pessoas, num claro retrocesso civilizacional capaz de colocar a França, e consigo os franceses, de volta ao século XX, no máximo nos anos 80.

 

Reconheçamos: todos temos um telemóvel, às vezes temos dois, eu tenho três, dois são espertos, o outro nem por isso e o dono também não.

 

E se interromper uma conversa ou uma aula porque se recebeu uma mensagem ou um telefonema é uma falta de respeito, e se através de um telemóvel as crianças estão sujeitas a cyberbullying, à pornografia, sem esquecer a predação e a pedofilia, porque não educar em vez de proibir, a começar desde logo pelos pais, fonte inesgotável de telemóveis e acesso à internet, e, já agora, porque não virar o feitiço contra o feiticeiro e usar os telemóveis em contexto de sala de aula?

 

Afinal, a ciência e a tecnologia permitem a cada um de nós um computador de bolso em cada bolso.

 

Este texto, por exemplo, foi escrito num telemóvel, inglês por sinal, mas onde cabem todos os acentos e cedilhas do mundo, e na ponta dos dedos estou de volta a casa.

 

Os telemóveis são processadores de texto, os telemóveis são calculadoras, auto-estradas de informação, televisores, uma janela para o mundo na palma da mão e, ao mesmo tempo, magia, mas verdadeira, e quem poderia imaginar há 30 anos ser possível manipular um ecrã com os dedos?

 

Há coisa de 10 anos, e no seguimento dos telemóveis espertos, surgiram os quadros interactivos. Ao mesmo tempo, introduziam-se os portáteis nas salas de aula, seguidos, vários anos mais tarde, pelos tablets.

 

Hoje temos telemóveis e, mais recentemente, óculos de realidade virtual, óculos esses dependentes de telemóveis, do YouTube e de uma infinidade de aplicações de realidade virtual para nos fazer viajar do centro de uma célula até Plutão, sem esquecer como é viver num quadro de Dali. Arte, Ciências, História, Matemática, vida.

 

Basta-nos um bom professor, curioso, bem pago, com a carreira descongelada e estável, para poder usar, em proveito de todos, dos alunos, dos pais, da escola e sociedade em redor, todos os telemóveis do mundo numa sala de aula.

 

Proibir os telemóveis? Assim que os nossos alunos puderem ter mão neles, hão-de fazer tudo quanto lhes der na real gana. E nessa altura não terão ninguém, nenhum professor, nenhum pai ou mãe ao pé para os ajudar, para os educar.

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