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Crónica

Isto é tudo muito bonito, mas

É urgente analisar a vida como se estivéssemos a enfrentar a morte. Afinal de contas, no nosso último dia vivos, será necessário avaliá-la, mas nessa altura já nada poderemos fazer em relação a isso

Texto de Manuel Clemente • 12/01/2018 - 12:13

Manuel Clemente
Manuel sofre de curiosidade compulsiva e é autor do blogue Semtimenos

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Isto é tudo muito bonito, mas, um dia, todos iremos morrer. Não importa a raça, o género, nem o estatuto social. Há-de chegar o momento em que o nosso coração irá parar de bombear o sangue e os pulmões irão suster a respiração para sempre. O património que acumulámos ao longo da vida em nada influenciará o destino final da forma que outrora tivéramos. A nossa última paragem será o aconchego de um pote ou a cobertura de uma placa de mármore onde estará inscrito o tempo que por cá passámos. Na vida, à excepção da morte, tudo é incerto, não existe maior verdade do que a finitude do nosso corpo. A morte está mais próxima do que pensamos até porque, na verdade, não investimos muito tempo a pensar sobre ela. Será medo? Inconsciência? O que nos leva a ignorar a verdade mais absoluta que conhecemos?

 

Felizmente, todos nós, ainda, estamos vivos. Infelizmente, nem todos sabemos o que fazer com esse estado biológico. Muitos de nós insistem em seguir receitas que não são suas, uma vez que vasculhar no meio dos nossos “ingredientes” pode ser aterrorizante. Fingimos ser felizes na esperança de que os outros acreditem na nossa máscara. Podemos conseguir enganar muita gente, mas se olharmos bem para o nosso íntimo veremos que algo se passa. Somos assaltados por inquietudes, nervosismos e ansiedades que rapidamente nos corroem pois não sabemos interpretá-los como bênçãos. Estas três sirenes que já tocaram no interior de todos nós são fundamentais para detectar que algo está fora do sítio. O caminho que estamos a percorrer certamente não é nosso.

 

Imaginem uma pessoa que não quer ir a lado nenhum, mas começa a construir uma estrada. Esta pode ser longa o suficiente para lhe ocupar a vida toda. Pode implicar destruir florestas ou construir pontes, acrescentar faixas ou até mesmo lombas. Agora imagina que essa pessoa és tu e constatas que essa é a tua estrada, mas que não te leva a lado nenhum. De que serviu construí-la? Podemos correr toda a vida para acumular coisas — seja riqueza, fama, paz de espírito, amor, poder ou leveza —, quando o fim chegar estaremos frente a frente com a morte e aí a nossa vida será submetida ao derradeiro teste, tudo o que acumulámos terá o devido significado ou não? Teremos dentro de nós algo incapaz de ser destruído pela própria morte?

 

O medo do futuro rouba-nos a vida, mas o receio de não ter vivido deveria ser suficiente para nos manter acordados. Aceitamos o papel de vítimas, pois tudo é mais fácil se a culpa não for nossa. Subimos a palco com a possibilidade de ser a personagem principal, mas prontamente assumimos o papel de figurante. Para quê? Vivemos forrados de desculpas como: “não tenho tempo”, “agora com filhos é difícil”, “já não tenho idade” ou “isso não é para mim”. Entregamos de mão beijada aquilo que temos de mais precioso na nossa vida: um propósito. Isto é tudo muito bonito, mas enquanto pensarmos que o que estamos a fazer é o mais adequado, enquanto a forma como “vivemos” nos parecer a mais acertada, não poderemos traçar o nosso caminho rumo à eternidade.

 

Certo dia, Bernard Shaw sugeriu que deveriam existir tribunais no mundo onde as pessoas tivessem de comparecer de três em três anos para provar que nesse período a sua vida tivera sentido. Era apenas uma piada, até porque tal ideia seria muito difícil de materializar. Mas, como alternativa, cada um de nós pode ser o seu próprio juiz e perguntar diariamente “como é que estou a viver? É com esta vida que irei conseguir destruir a morte?” É mais importante perguntarmos a nós mesmos porque é que queremos viver, ao invés de continuar apenas a fazer preparativos para uma vida que pode nunca acontecer. Perguntar porque é que queremos existir, ao invés de continuar apenas a proteger a nossa própria existência. Ninguém se vai lembrar de nós por sairmos sempre depois do chefe. No nosso funeral ninguém vai dizer “nunca me vou esquecer das fantásticas apresentações em powerpoint que ele fazia”. O nosso carro, a nossa casa, todos esses feitos que nos custaram tanto tempo, quando o resumo das nossas vidas passar a correr, não valerão nada. Tudo se irá resumir à forma como decidimos viver e que impacto tivemos nos outros. Escolhemos dedicar o nosso tempo a determinadas coisas porquê? Foi uma decisão totalmente baseada no livre-arbítrio ou limitámo-nos a ceder ao que era suposto?

 

É urgente analisar a vida como se estivéssemos a enfrentar a morte. Afinal de contas, no nosso último dia vivos, será necessário avaliá-la, mas nessa altura já nada poderemos fazer em relação a isso. Para quê esperar por um cancro ou uma doença terminal para fazer este juízo? Um dia não haverá amanhã, portanto façamos do hoje algo que dure para sempre.

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