Os velhos heróis do faroeste brasileiro

autoria Ana Marques Maia

// data 07/03/2018 - 11:58

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A paisagem plana, poeirenta, de tom amarelado sequioso, é talvez a primeira imagem que associamos à região do Sertão, no Nordeste do Brasil. Outras poderão assomar: o latifúndio, os vaqueiros, a seca, as magras cabeças de gado, a sanfona e o violão, o couro, a religiosidade fervorosa, o classicismo arraigado, a ténue presença de lei ou Estado. Quem melhor conhece a história do Brasil pode também associar a termos como pau-de-araracaboclo ou cangaço, que são, per se, reveladores do passado e da herança cultural da região. 

 

As pessoas que residem actualmente nas zonas rurais do Nordeste do Brasil "são pessoas que nasceram e cresceram noutro mundo", bem diferente do que hoje se afigura perante qualquer visitante, assegura o fotógrafo brasileiro Felipe Fittipaldi, em entrevista ao P3. O interior nordestino dos dias de hoje encontra-se demograficamente descaracterizado: a população diminuiu e os jovens praticamente desapareceram. “Encontrei pouquíssimos jovens pelo caminho”, comenta Fittipaldi. "As famílias viram os filhos irem embora ainda na adolescência." Desde os anos 60 que os jovens migram massivamente em direcção às grandes cidades, onde buscam libertar-se "do isolamento e do trabalho árduo na terra". "Com a chegada da Internet e de outras tecnologias, os jovens entraram em contacto com o mundo moderno e com as suas infinitas possibilidades e fantasias. (...) Agora eles querem viver algo diferente do que os seus pais e avós viveram." 

 

Felipe viajou mais de cinco mil quilómetros por estradas em terra batida, por toda a região nordestina, ao longo de vários anos, em busca das personagens e histórias que compõem a narrativa fotográfica de Morada do CabocloConheceu homens e mulheres idosos, isolados, solitários — "talvez os últimos representantes da cultura tradicional" —, que sobrevivem longe dos seus herdeiros. Podiam, também eles, ter-se mudado para a cidade, mas a maioria optou por ficar. "Acredito que o mundo moderno os assuste, de alguma forma", justificou. "Inicialmente, através do meu olhar estrangeiro, via com alguma tristeza a situação dessa geração perdida no meio da caatinga. Mas não é assim que eles se sentem. A maioria escolheu estar ali diante de outras possibilidades. Sentem-se bem vivendo a vida que conhecem e sendo eles mesmos."

 

A seca extrema, a solidão e a morte são elementos transversais na vida dos que habitam o campo nordestino, descreve o fotógrafo. As pessoas que retratou "passaram a juventude à margem do resto da sociedade brasileira e da actuação do Estado", esclarece, "e por isso desenvolveram uma cultura única" que se encontra na iminência da extinção. "A cultura sertaneja será lembrada e festejada, seja na literatura, na música ou em qualquer outra manifestação cultural, mas não será mais vivida no quotidiano", ressalva. "Grande parte da sociedade brasileira reconhece a importância dessa cultura", embora "existam ainda poucas políticas públicas (ou privadas) no sentido de a preservar e resgatar ou entender os seus membros", que continuam, em muitos casos, nas grandes cidades, a ser estigmatizados por parte dos compatriotas.

 

Felipe Fittipaldi é fotógrafo profissional desde 2005. Actualmente, colabora com o jornal El País (Espanha), a National Geographic e a Folha de São Paulo. Foi distinguido pela LensCulture, em 2017, pela POY Latam, Life Framer Award e National Geographic Photo Contest. O trabalho fotográfico pessoal incide invariavelmente sobre temas relacionados com questões sociais e ambientais. No Instagram — @felipe_fittipaldi — é seguido por mais de 2700 utilizadores.

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