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Crónica

E se eu amanhã não te reconhecer?

O Alzheimer rouba a vida do indivíduo e dos que rodeiam o mesmo, que passam a estranhos da noite para o dia. E as nossas memórias não têm preço, bem como o comando das nossas vidas

Texto de Mafalda G. Moutinho • 15/06/2018 - 16:17

Mafalda G. Moutinho é fundadora e editora da Plataforma Bisturi Cidadania Ativa

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Quantos de nós já não viajamos ao local da nossa infância e deixamos de o reconhecer. Cimentaram a escola onde estudamos com as obras do tempo. Aqueles que foram a nossa vida durante aqueles longos anos em que ser criança nos parecia um estatuto inferior à aparente liberdade dos adultos são hoje pessoas que não reconhecemos.

 

A vida aconteceu para todos e os interesses apontaram e divergiram em direcções opostas. O passado demonstra de forma dura, fria e cruel ser, nada mais, nada menos, que páginas passadas, que servem para folhearmos com nostalgia as memórias que escolhemos.

 

O filme Eternal Sunshine of the Spotless com Jim Carrey apresenta-nos um cenário em que o protagonista pretende apagar da sua memória a relação que viveu com a sua ex-namorada. Uma história de ficção científica que se tornou real segundo estudos realizados por cientistas em 2016 que revelaram ter chegado a uma solução para apagar as memórias traumáticas do nosso cérebro. Os tempos que vivemos são curiosos: se por um lado queremos combater as doenças neurodegenerativas que nos roubam a vida aos poucos e as nossas memórias, por outro queremos apagar os sofrimentos da vida que fazem de cada ser humano um ser único com pedaços de história únicos. Ser humano esse que se vai iludir milhares de vezes pela vida fora com os outros, desiludindo-se na mesma medida.

 

Recordo o caminho que fiz vezes sem conta com apenas sete anos de idade de casa da minha ama à casa da Dona Albertina. A Dona Albertina foi a melhor amiga da minha avó. Vivia sozinha e eu gostava de a ir animar e provar os morangos deliciosos e incrivelmente pequenos que ela tinha no quintal. Nas últimas vezes que lá fui apercebi-me que ela deixou de me reconhecer, julgava que eu era a minha mãe. As histórias passaram a ser sempre as mesmas, como se aqueles lanches tivessem uma cassete por trás. Soltei o alarme do Alzheimer em minha casa, estando claramente longe de saber o significado desta palavra. Certo dia o leite esquecido no fogão quase incendiou a casa da Dona Albertina.

 

O Alzheimer rouba a vida do indivíduo e dos que rodeiam o mesmo, que passam a estranhos da noite para o dia. A incidência destas doenças faz com que seja da responsabilidade do Estado Social a formação dos cuidadores informais com vista à adequada prestação de cuidados. Dei por mim a pensar por estes dias como seriam as memórias passadas dos millennials com o Alzheimer por trás: será que as histórias do marido e dos filhos jovens passarão a vestir inúmeros rostos, dos namorados(as) que se somam Verão sim, Verão sim no Tinder?

 

As nossas memórias não têm preço, bem como o comando das nossas vidas. Espero que no futuro possamos não nos reconhecer pelas desilusões da vida, porque deixamos de poder comandar a nossa mente e as nossas emoções através da ficção científica da vida real, ou através destas doenças que nos roubam a vida aos poucos. Se eu amanhã não te reconhecer, espero lembrar-me de ti. Lembrar-me e sorrir com o que em milésimas de dias de vida me fez ter estado tão próxima de ti.

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