Brasil: uma “curta” com 4000 pinturas para falar de opressão

autoria Mariana Durães

// data 14/06/2018 - 17:44

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Cerca de quatro mil pinturas transformadas em curta-metragem chegam esta quinta-feira, 14 de Junho, ao Maus Hábitos, no Porto. Bárbara Balaclava é o nome do filme de 14 minutos produzido por Thiago Martins de Melo, pintor brasileiro, sob a curadoria de Moacir dos Anjos, investigador da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife. O filme foi montado a partir da técnica de stop motion, com recurso a pinturas a óleo, acrílico e aguarela, e vai estar em exposição até 29 de Julho, no âmbito do programa Emergência.

 

Criado em 2016, Bárbara Balaclava foca-se nas questões de dominação, conflito e confronto da história do Brasil, procurando retratar os abusos contra as populações de origem indígena e negra do país. O criador da obra, que autorizou o P3 a publicar este excerto, explica que “o filme trata uma luta ancestral entre as populações tradicionais e o desenvolvimento, ao mesmo tempo que estabelece uma relação com o Xamanismo — procura compreendê-lo e compreender também a luta através das tradições espirituais da região amazónica.” 

 

Numa edição vertiginosa de imagens acompanhada por trilha sonora, a curta-metragem avança e recua no tempo com o intuito de chamar a atenção para a longevidade dos processos de dominação sob as comunidades indígenas e negras e de como esses fantasmas ainda assombram a sociedade de hoje. O filme mostra índios e negros, homens e mulheres, carnais e espirituais, bárbaros e civilizados em conflito, transpondo para a tela o painel social de discriminação, assim como os efeitos da escravidão e violenta discriminação. 

 

Porquê Bárbara Balaclava? Thiago explica: “A balaclava é a touca que esconde a cara usada por muitos militares, mas que, na luta, passa a ser usada também pelos grupos de resistência. 'Bárbara' é como os colonizadores chamam à civilização que luta contra aquilo a que eles chamam ‘processo civilizatório’.” Assim, o nome resulta de uma espécie de aceitação do que seria o termo pejorativo “bárbara” e refere-se à balaclava dos oprimidos.

 

Além do filme integral, o Maus Hábitos recebe uma pintura inédita de Thiago. A obra do artista é conhecida por apelar à memória cultural e transpor para a pintura personagens históricas, entidades espirituais, figuras míticas e relatos étnicos e culturais. “Toda a minha obra é baseada nisto. Eu produzo na região amazónica, nessa fronteira entre a luta desenvolvimentista neoliberal e a resistência de comunidades que vivem ali. E vivemos isso diariamente”, explica ao P3 o pintor. Nas palavras de Moacir dos Anjos, enviadas ao P3 em comunicado, as obras de Thiago “são feitas de pinceladas rápidas e fortes que acumulam, sobre o suporte usado, tinta bastante para criar, em cores vibrantes, acidentados relevos e planos.” O curador vai estar no Maus Hábitos no dia 16 de Junho às 15h para uma conversa com o pintor.

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