JUKA MANO junta poeira ao hip hop

autoria André Carvalho

// data 19/02/2018 - 15:01

// 3050 leituras

Ainda há uma semana abordávamos a necessidade de um rapper apresentar algo que o diferencie, para assim se distinguir dos imensos replicadores de estereótipos americanos (no fundo, que seja criativo e não reprodutivo), e logo na seguinte recebemos este Calma de JUKA MANOque, parece de propósito, abdica mesmo de quase toda a representação convencional do hip hop. Género que é já tão universal e socialmente abrangente, logo, sem necessidade de obedecer à recorrente temática de exclusão, repressão, identidade racial ou materialismo exacerbado.

 

Por isso, convém pôr isto em três pontos:

1. É mais um nome do interessante núcleo do hip hop de Coimbra, no caso, a crew/proto-label Velha Capital.

2. O flow de uma clareza rítmica é afirmação de singularidade de JUKA MANO, na qual o rap tem jeito "raggamuffin" ou eventual canto, e o som é já uma mescla, quer de batidas hip hop ou de balanços reggae, com elementos folk (harmónica) ou ambiências de ancestralidade (é segundo avanço do vol. II da mixtape Rebeleão).

3. O videoclipe é obra do também coimbrão André Carvalho, que dinamiza a produtora/marca criativa Lazy Eye, e que tem vindo a explorar uma visão diferenciadora da estafada imagem "urbe/bairro" e do chapado formato "rapper-a-cuspir-rimas-prá-câmara", ficcionando personagens perdidas na paisagem beirã. Neste caso, experimentando até um registo histórico de inícios do século XX.

 

Se os fãs admitem que a terra, a poeira e a interioridade possa fazer parte da mensagem e do imaginário do hip hop, não sabemos, ao menos que admitam que este é um caminho criativo, e que merece aplauso por isso, mesmo que... lá está, acabem enterrados.

 

Texto escrito segundo o novo Acordo Ortográfico, a pedido do autor.

Eu acho que